Entrevista Carlos Gracie presidente do CBJJ

18/04/2012 19:01

terça-feira, 17 de abril de 2012  Por Erik Engelhart

À frente da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu há mais de dez anos, Carlinhos Gracie concedeu uma entrevista exclusiva a TATAME. O presidente da CBJJ analisou o atual panorama do Jiu-Jitsu e garantiu que em breve o “caldo vai engrossar” para os brasileiros, devido a ascensão dos lutadores estrangeiros. Carlos explicou porque o Mundial não voltará a ser sediado no Brasil, falou sobre a  dificuldade em implementar o exame antidoping no Jiu-Jitsu, entre outros assuntos que você confere a seguir.

 

Qual o panorama que você faz do Jiu-Jitsu atual?

 

O Jiu-Jitsu é um esporte que tem crescido muito e a cada ano cresce mais. A arte suave está se espalhando pelo mundo, apesar de ser um esporte novo, é um esporte que eu acredito que vai abranger uma imensidão gigantesca. Ele está agora se difundindo no ocidente, mas a hora que pegar o oriente pegar, o Jiu-Jitsu vai explodir muito. Imagina quando Jiu-Jitsu chegar a China, imagina o tamanho que isso não vai ficar? Hoje eles têm uma, duas equipes. Mas, na hora que o Jiu-Jitsu estiver espalhado por lá, Vai ser uma competição muito rigorosa, vai existir um número muito grande de atletas. Cada vez mais vai ser difícil o cara chegar ao topo de um campeonato mundial, Pan-Americano ou de um campeonato nacional.

 

Qual a expectativa para o Mundial?

 

A expectativa é boa. Na verdade, eu já vejo que, no Jiu-Jitsu hoje, o cara ganhar um Mundial é como ganhar uma Olimpíada. O atleta ali não deixa nada a desejar a ninguém, é um tremendo de um atleta, uns garotos esforçados a beça, que treinam, passam a vida treinando. Eu acho que a gente está no caminho certo, o negócio é desenvolver mesmo e agora é questão de tempo. É o amadurecimento de um esporte que está crescendo ano a ano.

 

 

Vocês têm planos de voltar a fazer um Mundial no Brasil?

 

Olha, o que acontece é o seguinte: a gente está criando mais campeonatos importantes, mas eu acho que, no momento, os Estados Unidos tem mais infraestrutura para receber o Mundial do que o Brasil. Aqui a gente não tem clube direito. Vai fazer no Rio de Janeiro? No Tijuca Tênis Clube?

 

No Maracanãzinho...

 

Esses lugares não comportam mais um campeonato mundial. É até uma difamação para o Brasil. Os caras estão acostumados com um ginásio imenso. Eu, pra fazer um evento no Brasil, teria que ser uma coisa muito boa, o evento teria que estar no nível que seria nos Estados Unidos, senão você acaba até manchando a imagem do evento.

 

Nesse Pan-Americano, na faixa roxa, um gringo foi peso e absoluto. Você acha que, em breve, os gringos vão fazer frente aos brasileiros na faixa preta?

 

Com certeza. Você tem que olhar a história, como foi na história do Jiu-Jitsu lá fora, mas os primeiros caras que começaram a aprender Jiu-Jitsu fora do Brasil eram pessoas acima de 30 anos, caras que estavam mais antigos. Você vê hoje que, no máster e no sênior tem um monte de gringo ganhando. Se você for analisar e ver o Pan-Americano, a quantidade de gringos campeões é muito grande, porque começam com 30 anos. Agora estão com 40, 45 anos. O que está acontecendo nos Estados Unidos e no resto do mundo é que as crianças desse pessoal que está hoje com 35, 40 anos, eles, por gostarem e serem praticantes do Jiu-Jitsu, botam os filhos deles no Jiu-Jitsu. O Brasil leva vantagem porque os garotos que são campeões mundiais hoje são garotos que começaram na infância, têm uma escolaridade no Jiu-Jitsu grande e hoje, quando eles chegam na faixa preta, com 21, 22 anos... Eu vejo pelo meu filho, que compete desde os 8 anos de idade. Então você já tem uma bagagem nas costas quando chega aos 23 anos de idade que às vezes um cara que começou mais tarde um pouco não tem. O que acontece é que daqui uns cinco anos, os garotos que começaram com 14, 16 anos, vão estar na faixa preta. Aí o caldo vai engrossar para todo mundo.

 

E em relação ao seu filho, o Kayron Gracie, como você está vendo o desenvolvimento dele, que foi campeão Pan Americano?

 

Eu acho que ele está ficando mais duro, ficando mais homem, começando a levar mais a sério as coisas. Ele ficou naquela de ‘eu não estou treinando como eu deveria treinar’, mas veio com uma vontade de competir, muito mais do que pelo treinamento que ele fez. Eu me sinto satisfeito de ver que ele chegou a um nível que ele pode estar ali entre os melhores da categoria. É difícil hoje, você dizer quem vai ganhar uma categoria, é muito difícil, é igual uma loteria. Todo mundo é muito duro, as técnicas se comparam, o condicionamento físico se compara. Eu acho que é muito daquele dia, do cara estar bem naquele dia e se sair bem. Mas eu estou muito satisfeito com ele, me orgulho dele, é um garoto que a vida inteira só me deu felicidades, admiração e eu espero que ele continue assim. Que ele esteja pronto para o que der e vier.

 

Por que até hoje a CBJJ não implementou os exames antidoping? Qual a dificuldade?

 

Eu acho que o que mais pega é a burocracia das entidades que tomam conta do doping. O que acontece é o seguinte: o doping é uma organização à parte, que eles chamam para o evento para fazer. A gente, do evento, não tem nenhum tipo de pressão, de influência em cima daquela organização. É uma organização mundial que faz isso. Pra essa organização mundial vir fazer o doping é que começa essa burocracia. A gente está tentando isso, estamos mexendo todos os nossos pauzinhos para que isso aconteça, porque eu acho que isso é uma coisa importante. Eu, particularmente, sou contra esses garotos, que por ignorância ou seja lá pelo que for, estão tomando esses produtos que, no futuro, vão fazer mal para a vida deles. Eles não estão encarando isso e eu acho que ser campeão de um evento não compensa o mal que isso vai fazer mais tarde para eles. Eu, mais do que ninguém, gostaria que isso fosse implantado para justamente os caras pararem de fazer isso.

 

 

A Gracie Barra sempre foi uma grande equipe e dominou o Mundial. A Alliance tem ocupado esse lugar recentemente. Quando a Gracie Barra vai voltar ao topo?

 

A gente leva dez anos pra criar um time forte. Você começa com os garotos, vão crescendo, vai ficando adultos, nas faixas adultas, e aqueles que se mantiveram e que gostarem de competição vai ser aquela equipe que vai representar a sua academia. Eles vão começar representando a sua academia com cinco, seis anos de preta e depois vão competir no máster. Acontece que a gente fez muitas mudanças dentro da Gracie Barra. Eu comecei a ter uma divisão na qual eu queria que o Jiu-Jitsu seguisse. A gente já estava se preocupando muito, as escolas de Jiu-Jitsu estão se preocupando muito com o aluno de competição.

 

 A gente estava focado 100% na competição só, e a gente não estava oferecendo uma qualidade de Jiu-Jitsu para as pessoas que queriam ir para a academia e não queriam competir, queriam ir para uma aula de Jiu-Jitsu. Eu tive que adaptar o que eu achava que era importante para atender a comunidade da onde você está: crianças, pessoas que precisam muito do Jiu-Jitsu. O competidor normalmente é aquele competidor que vai pra sua academia e é casca-grossa. Na verdade, ele já é um cara sem medo e com certas qualidades na vida, mas tem muitos outros necessitam, porque às vezes são pessoas que não têm acesso ao que eles tiveram de acesso na vida de você dentro da escola do Jiu-Jitsu para que você o encaminhe nas coisas da vida. Muitos atletas ali, que estavam acostumados a usar o tatame o dia inteiro, se sentiram um pouco desmotivados, querendo que a academia fosse focada só neles. Eu expliquei: você vai ter um horário. Vai ter o horário da competição.

 

E a luta entre Rodolfo Vieira e Roger Gracie, será que sai esse ano?

 

Pode ser que saia. Eu acho o Rodolfo Vieira um cara que vem se apresentando muito bem, um garoto novo, que está começando a despontar agora e eu acho que ele tem um grande futuro pela frente no Jiu-Jitsu. No caso do Roger, eu acho que ele está focado agora em outros objetivos. Ele está voltado mais no UFC, está tendendo mais para aquilo. As prioridades dele mudaram um pouco, mas eu acho que há uma entressafra aí do negócio de Vale-Tudo. Se o Roger tiver um tempo entre uma luta e outra, eu não duvido nada que faça uma luta casada. Eu não sei se o Roger vai voltar a disputar os campeonatos de Jiu-Jitsu, mas uma luta casada entre ele e o Rodolfo pode acontecer a qualquer momento se houver interesse entre os dois, se houver interesse de patrocinador em fazer um evento, uma coisa dessas. Eu acho até legal, acho que o Roger até gostaria que isso acontecesse. Hoje, pra ele, o Roger é um competidor, é um cara que gosta de se botar em desafios, então  eu não vejo... Acho que tudo pode acontecer em um futuro próximo.

https://www.tatame.com.br/2012/04/17/JJ--Carlos-Gracie-